Bunkers inspiram casa na Holanda

Os bunkers eram construções militares que protegiam a população de bombas e tiros durante a 2ª Guerra Mundial. Na Holanda, ainda há várias dessas estruturas remanescentes na paisagem verde do campo. Embora muitos tenham sido parcialmente demolidos, outros foram adaptados para novas e inusitadas funções, como abrigo para gado, armazéns para agricultores e até mesmo playgrounds.

Casa de campo de concreto (Foto: Mark Seelen)
A sala de lareira é desfrutada pelos moradores a bordo de um sofá e uma poltrona dos irmãos Bouroullec para a Ligne Roset – luminária de piso de Sylvain Willenz, da Established & Sons, cabeça de alce da Vlaemsch, mesa de apoio de Thomas Bentzen, da Hay, e mesa lateral(à esq.) desenhada pelo pai de Sylvie nos anos 1960.

Eram esses bunkers de concreto que Don Murphy – fundador do escritório VMX Architects, ao lado de Leon Teunissen – tinha em mente quando adquiriu um terreno vizinho ao parque Middelpolder, em Amstelveen, logo ao sul de Amsterdã. O local, cercado por grandes árvores e pequenos riachos, em uma reserva natural, deu ao arquiteto a oportunidade de projetar uma residência sob medida para a vida em família, com sua mulher Sylvie e os três filhos, Oscar, Ava e Edan, além dos quatro cães de estimação.

Casa de campo de concreto (Foto: Mark Seelen)
Nesta mesma ala, a área da sala de jantar e da cozinha, com destaque para a ilha de Corian laranja desenhada por Don Murphy, torneira da Vola com design Arne Jacobsen e cadeiras de Charles e Ray Eames, da Vitra.

Todas as manhãs, imersas em névoa e silêncio imperturbável, apenas umas poucas luzes acesas permitem localizar a casa, uma forma geométrica de concreto que faz lembrar duas barras de ouro viradas sobre si e empilhadas.O projeto foge da tradição da arquitetura holandesa, tem mais a ver com a aquela praticada nos países de origem de seus moradores, meio irlandeses (ele), meio ingleses (ela).

Casa de campo de concreto (Foto: Mark Seelen)
Um dos acessos ao setor social se dá por uma escada circular encimada por um pendente de Francisco Gomez Paz e Paolo Rizzatto, da Luceplan – o bar foi trazido da antiga casa da família.

Foi preciso uma interpretação flexível da legislação municipal, que prevê, para as casas a serem construídas, a obrigatoriedade de terem telhados inclinados semelhantes aos das velhas residências de fazenda que as circundam, a fim de que Murphy chegasse ao traçado monolítico de seu lar.

Casa de campo de concreto (Foto: Mark Seelen)
A suíte máster é um dos cômodos totalmente visíveis do lado de fora, graças à arquitetura de Murphy, que reza pela integração entre interior e exterior – cama customizada por Douwe den Hertog, luminária de piso de Paolo Rizzatto, da Luceplan, e quadro de Willem van den Hoed.

O Departamento de Construção e Habitação de Amsterdã conferiu e reconferiu o projeto antes de concluir que estava dentro das normas. Já o Comitê de Estética de Amstelveen concordou imediatamente com o design, apreciando a ousadia e congratulando o arquiteto. “A casa inspira amor ou ódio em quem passa por aqui – não há meio termo”, diz o autor. “Eu acho que o concreto pode ficar muito bonito com o passar dos anos, e daqui um tempo a obra vai estar absorvida pela paisagem”.

Casa de campo de concreto (Foto: Mark Seelen)
Os cães Pepper, Scallywag, Mimi e Okki fotografados no living, decorado com poltronas de De Pas, D’Urbino e Lomazzi (à esq.) e Joe Colombo (um protótipo dos anos 1960), luminárias de piso de Paolo Rizzatto, da Luceplan (à esq.), e de Mario Bellini, da Flos, e quadros de Mathieu Kleyebe Abonnenc (à esq.) e Alexander Scott.

Quase todas as paredes e janelas das fachadas são inclinadas, o que faz com que os vidros não reflitam o interior quando se olha de fora, enfatizando o diálogo da morada com seu entorno campestre. “Uma característica recorrente nos meus projetos é que trago o exterior para dentro da casa. Aqui, essa é uma relação simbiótica”, diz Murphy.

Casa de campo de concreto (Foto: Mark Seelen)
O arquiteto Don Murphy.

A construção tem três andares, sendo um deles um porão que fica pouco abaixo do nível do solo. Mas a área que melhor acolhe a vida em família é o grande living no piso de cima, cuja parte central é ocupada pela cozinha, composta por uma bancada e uma ilha de Corian laranja, a cor favorita de Sylvie. Por todos os cantos espalham-se móveis assinados, cuidadosamente escolhidos pelo arquiteto ou trazidos do antigo endereço dos Murphy em Amsterdã.

Casa de campo de concreto (Foto: Mark Seelen)
A inclinação das fachadas e janelas reforçam o diálogo da morada com seu entorno campestre, uma vez que evitam que os vidros reflitam o interior quando se olha para fora e vice-versa – quem está no exterior consegue enxergar o que acontece do lado de dentro.

“De certa maneira, as casas que desenho são biográficas, o que faz da minha uma casa autobiográfica. Ela retrata nossa vida familiar, não convencional, mas isso é o que nós somos!”, afirma o arquiteto. “Viver neste lugar deve, entre outras coisas, ser divertido, não pode ser tão sério. É por isso que a cultura arquitetônica holandesa é tão adequada para estrangeiros como eu, os holandeses têm a mente aberta para ideias criativas, são receptivos ao novo”, conclui.

Casa de campo de concreto (Foto: Mark Seelen)

Via Casa Vogue.

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